Cá Entre Nós

Diga “não” quando você quer dizer não

Você já se surpreendeu com você mesmo? Sabe aquela sensação de que uma parte desconhecida de você, que vai contra tudo o que você acredita e é, aparece de repente e meio descontrolada? E depois pensamos: “Ai! Quando eu vi, já tinha feito...”. Por que isso acontece? De onde vem esse “eu secreto” que volta e meia nos atormenta?


Bem, para entendermos melhor nosso funcionamento, vamos mergulhar em nós mesmos e abordar um assunto interessantíssimo: polaridades. Cada um de nós tem um conjunto de características, conceitos e sentimentos que se entrelaçam, interagem e dão sentido ao que somos. Alguns destes aspectos se combinam e se confirmam e outros parecem ser opostos entre si. A estes últimos chamaremos de polaridades.


Gosto muito do exemplo bíblico de Davi. Davi tinha as características polares da sensibilidade de um poeta e da agressividade de um guerreiro. Tudo junto, em uma pessoa só! O que, em vez de gerar uma ruptura em sua personalidade, dava criatividade e um maior leque de possibilidades de respostas diante da vida. Na batalha contra o gigante, Davi teve a sensibilidade de perceber suas habilidades e inovar transformando um utensílio de pastor de ovelhas numa arma de guerra. Ele integrou seus dois lados aparentemente opostos! Da mesma maneira, as nossas polaridades não excluem uma a outra, pelo contrário, quando conseguimos conhecê-las e aceitá-las, Sabe quando você está ocupado e aquela pessoa liga para contar uma história interminável? Na hora você pensa que deveria interromper a conversa, mas algo trava a sua língua e paralisa você... como se lhe impedisse de dizer que você não está disponível naquele momento. Cruel... Ficamos esmagados entre os afazeres que nos aguardam, o receio de desagradar o outro e a angústia contida de querer terminar a conversa... Então a pessoa fala, fala, fala, fala e, de repente, diz: “ok, agora tenho que desligar porque vou à academia” - como se estivesse lhe dispensando por alugá-la esse tempo todo no telefone! Já aconteceu com você? Como se sentiu? Bate uma sensação estranha, um arrependimento de ter dito “sim” à situação e ter se permitido...


O interessante é que esse sentimento negativo gerado por contrariar as próprias vontades e ceder às demandas e desejos do outro costuma durar mais do que o clima chato que se instaura após um “não”. Ou seja, para não frustrarmos e não desagradarmos as pessoas, acabamos nos frustrando e nos desagradando... E por mais tempo! Abrimos mão dos nossos próprios limites e nos sentimos invadidos, usados e não valorizados.


É claro que ceder é parte fundamental dos relacionamentos, mas constantemente abrir mão de si é sintomático. Vamos pensar... Será que somos assim tão bonzinhos que, mesmo contra nosso desejo, cedemos sempre para o outro simplesmente pelo nosso coração generoso? Precisamos nos questionar a serviço de quê este comportamento se repete, qual necessidade nossa ele está suprindo: de ser aceito? De evitar conflitos? De manter o outro por perto?


Quando buscamos agradar o mundo, acabamos criando expectativas de como devem reagir a isso. É interessante percebermos como ficamos quando nossas expectativas são frustradas... Até que ponto não estamos fazendo com o outro o que gostaríamos que ele fizesse para nós? Talvez nós mesmos sejamos sensíveis demais ao “não” do outro e projetamos nossa sensibilidade, achando que as pessoas ficarão magoadas com a nossa negativa. Aprendemos que é feio desagradar o outro, mas nos esquecemos que em todo relacionamento vamos frustrar e ser frustrados em algum momento... Somos diferentes! Isso é saudável! É na diferença que crescemos. As diferenças mostram que existem limites e toda relação precisa deles! Fazer tudo pelos outros atrapalha o nosso próprio crescimento e daqueles que nos cercam. Você já percebeu que pessoas excessivamente altruístas geram seres egoístas ao seu entorno? Nem sempre o bonzinho é o mais valorizado...


Perceber os próprios limites e se respeitar é o primeiro passo! Muitas vezes abrimos tanto mão de tudo que acabamos simplesmente não percebendo mais quem somos, o que queremos, o que gostamos... Deixo aqui algumas questões para reflexão: o que pode acontecer se eu disser “não”? Qual é a pior possibilidade? Como é para mim correr o risco de frustrar o outro? Para que busco corresponder às expectativas? Devo sempre agradar para ter o amor e aceitação das pessoas? E se fizer isso, o amor será por mim ou pela imagem que tento passar?


Há várias maneiras de dizer não, colocar seus limites não significa agredir ou ofender as pessoas. Permita-se dizer “não”! Permita-se ser você...


Dra. Gabriela Maldonado