Editorial

“Qualquer que permanece Nele não peca; qualquer que peca não O viu nem O conheceu. Filhinhos, ninguém vos engane. Quem pratica justiça é justo, assim como Ele é justo.” (I João 3:6,7). 



Amados irmãos,

 

Se tivéssemos plena consciência do nível de santidade que Jesus exige, veríamos que é impossível alguém se salvar por meio de obras de justiça. Se tivéssemos coragem de encarar os mandamentos de Jesus em suas consequências mais profundas, veríamos que não há outra saída a não ser nos refugiar debaixo da cruz. Se a salvação for conquistada apenas pela obediência aos mandamentos santos, todos nós estamos irremediavelmente condenados.

 

Jesus ensina que devemos amar até mesmo nossos inimigos; que devemos dar a outra face quando somos esbofeteados; prega que devemos abrir mão de nossos confortos e levar uma vida modesta para que o que sobrar distribuamos com os pobres. Fala que o ódio é homicídio e um olhar mais insinuante já é adultério. Ele ensina que divórcio só tem um motivo, - a dureza de nossos corações, o que nos leva a ver que, para o crente, perdão e reconciliação sempre serão o único caminho que agrada a Deus, mesmo quando acontece a maior das ofensas. Se não perdoarmos aqueles que nos agridem, tampouco seremos dignos do perdão do Pai.

Para Jesus perdão não é este que cobra preço e que nos coloca sempre com um pé atrás em relação ao outro. Ele fala de perdão mesmo, perdão igual ao de Deus, que Se doa por inteiro, mesmo após todas as ofensas que diariamente fazemos contra Ele e contra Sua santidade.

 

Como não podemos alcançar este padrão de santidade determinado por Cristo, tentamos abrandar a dureza do Seu discurso para satisfazer os nossos anseios de ser, de alguma maneira, dignos da salvação ou da atenção especial de Deus. Nós nos satisfazemos em caminhar na periferia dos mandamentos. Por isso, consideramos que quem foi ofendido e não guarda ódio ou amargura no coração já pode dizer que perdoou; se ajudarmos algumas pessoas já podemos colocar na conta de nosso amor ao próximo; vamos à igreja aos domingos e chamamos isto de fidelidade, comunhão; se somos dizimistas, já podemos considerar como consagração... Andamos em conformidade com o que achamos possível ou desejoso para nós e chamamos isto de santificação e, à semelhança de Adão e Eva, tentamos esconder com as folhas de figueira da nossa santidade rasa a vergonha da nossa nudez ante ao Senhor

 

 

Assim vamos enganando a nós mesmos, crendo em nossa “santidade” acomodada. Jesus não fala de “esforço bem intencionado”, como se bastasse tentarmos “fazer o nosso melhor” para com isto alcançarmos o favor de Deus. Em todas as passagens bíblicas em que se coloca como juiz, Ele separa aqueles que cumprem, daqueles que não cumprem os mandamentos, simples assim.

 

 

É muito mais fácil determinarmos que roupa vestir, quais palavras são proibidas ou quais comportamentos sexuais são aceitos. É mais simples conhecer a hierarquia dos demônios, fazer cultos festivos e tomar posse das bênçãos. Por outro lado, é muito mais difícil e complicado amar ao próximo como a nós mesmos, perdoar setenta vezes sete, amar nossos inimigos, caminhar a segunda milha, dar a outra face, nos doar aos necessitados e encararmos a nós mesmos e as nossas contradições, ambiguidades e hipocrisias sabendo que, mesmo se cumpríssemos tudo isto, ainda assim seríamos servos inúteis que não teriam feito nada além daquilo que lhes foi ordenado.

 

 

Analisando todas as implicações, com o coração aberto e sem máscaras, só podemos chegar a uma conclusão: é impossível cumprir todos os mandamentos de Jesus na plenitude que Ele exige. Precisamos nos ver como somos. E a verdade é que perante Deus todos nós somos miseráveis, pobres e nus. A diferença é que, muito além de miseráveis, pobres e nus, ainda por cima não enxergamos esta realidade.


Amados irmãos,

 

Só quando nos vemos com os olhos santos de Deus, sem justificativas, sem desculpas, sem vestes da mentira, é que percebemos que estamos irremediavelmente condenados, todos nós, seja pela lei de Moisés, seja pelos mandamentos de Jesus, que são ainda mais profundos e exigentes que a própria lei.


Quando nos enxergamos como somos, percebemos que não há esperança que não seja a graça de Deus que se entregou na cruz em Cristo. Não há caminho que não seja nos entregarmos, abrirmos mão do nosso orgulho espiritual e entendermos que o único caminho é confiar, sem méritos, sem obras, apenas crendo em um Deus misericordioso que se fez homem apenas para que a nossa injustiça fosse feita justiça perante Ele.


Misericórdia, Senhor!


Boa leitura!