Opinião

Pela orelha

Estávamos na Itália. A senhora perdeu a paciência com o pequeno que barbarizava com o irmão no restaurante. Não teve dúvida. Deu a volta na mesa e, pela orelha, o trouxe para sentar ao seu lado. Pela orelha. Sem nenhuma dúvida. E em público. Ela tinha absoluta certeza de que estava fazendo a coisa certa.

É cada vez mais difícil vermos uma cena dessas no Brasil. Graças a Deus. Pelo menos em público, os pais parecem se comportar dentro das novas leis que protegem nossas crianças. Quero crer. O que me impressionou na mama italiana foi a plenitude do seu ato. A certeza de que ela fazia o que precisava ser feito. A propriedade que tinha sobre a sua autoridade de mãe. A superioridade sobre um ser que precisava ser conduzido e que obviamente não sabia mais do que ela, simplesmente porque era seu filho. Nunca tive esta certeza. E me fez falta. Na maioria das vezes, vacilei na hora de corrigir. Tenho dúvidas demais para conseguir um ato extremo.

Quando nasceram os meus filhos, confesso, achava que comigo ia ser moleza. Tinha uma ingênua certeza de que conseguiria resolver tudo na conversa. Balela. Percebi a hora exata em que minha mãe pegava o chinelo. Não peguei. Repito: felizmente, já passamos dessa fase.

A quantidade de informação disponível, as novas leis e as novas mães nas portas das escolas, conversando como doutoras em psicologia, fizeram com que, no mínimo, nos envergonhássemos de perder a cabeça numa palmada. Mas o que fazer nas horas extremas?

Sempre vacilei. Apelava para o velho, bom e ainda permitido castigo. Mas que castigo dar? Qual seria a justa medida? E dá-lhe conversa, sermão e blá, blá, blá. Fiquei tocada com a mama do restaurante. Tive inveja da leveza de sua ascendência.

Apesar de condenar os puxões de orelha, encantou-me ver com que plenitude ela desempenhava o papel que Deus lhe destinou. Era estrela absoluta de sua história.

Depois de toda a cena, os dois voltaram à vida como se nada tivesse acontecido. Lembrei-me das lágrimas que chorei no banheiro, dos castigos tão difíceis de manter. A eterna dúvida se estava fazendo a coisa certa, se era mesmo necessário ou até se era melhor deixar para lá. Se o tempo e o amor reinante não dariam conta de corrigi-los por mim.

Hoje, sei que não. Apesar de não ter sido assertiva o suficiente, consegui construir com meus rapazes uma relação de respeito. Posso dizer que, apesar de não ser fácil, ainda é muito mais gratificante puxar conversa do que orelha.

 

Denise Fraga é atriz, casada com o diretor Luiz Villaça e mãe de Nino, 18 anos, e Pedro, 17 e-mail: [email protected]