Opinião

O Caminho do Saber

O falar apenas daquilo que se sabe e se sente representa o apogeu do magistério eclesiástico. Ou seja: pratique o que tem aprendido e o Senhor da paz será convosco.

Um amigo viveu experiência interessante. Confrontado pelo filho adolescente, desafiador e ansioso para romper regras, ouviu dele que tinha um “sério” comunicado a fazer. Imaginando o desabrochar de uma crise existencial, ouviu o comunicado: “Pai, eu sou ateu”. Retrucou imediatamente: “Filho, você não tem cultura suficiente para dizer isso”.

Escrevendo para o jornal El País, o escritor Rafael Argullol mencionou detalhes de uma realidade espanhola, onde se desenrola o que chamou de “desestímulo docente”, com professores que se sentem até mesmo ofendidos, e isso mais pelo desinteresse dos discentes do que pela ignorância propriamente dita. Sintomas latentes: nada ler na imprensa escrita (exceto para aquilo que for fornecido gratuitamente), não leitura de livros fora do rol das chamadas “biografias obrigatórias” e ausência total em qualquer conferência, a menos que sejam premiados com créditos considerados úteis para suas aprovações. Assim, segundo Argullol, construiu-se uma perigosa teia de aranha, na qual se enredam os adeptos do que o escritor chamou de “impunidade ante a ignorância”, centrada em dois pólos – o desinteresse intelectual dos estudantes e uma cada vez mais progressiva asfixia burocrática da vida universitária.

Como o caminho do conhecimento pode ser considerado longo e complexo, é muito valiosa a recomendação de Pedro – primeira epístola, 2:1 - para que desejemos, “ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que por ele vos seja dado crescimento para salvação”. Esse leite que alimenta é o conhecimento, é o acumular do saber. O falar apenas daquilo que se sabe e se sente representa o apogeu do magistério eclesiástico. Ou seja: pratique o que tem aprendido e o Deus da paz será convosco, como Paulo ensina em Filipenses 4:9.

Se, nos relatos do Antigo Testamento, são registradas insistentes proclamações – “Assim diz o Senhor”, como lemos em Jeremias 9:23, fica explícita a lição de que nós, Seus filhos, temos o dever de falar em nome Dele. Com pedagogia e clareza, conteúdo e não superficialismos, fé que não abre espaço para dúvidas, certeza e não superstições.

Na sociedade das elites dominantes, também existe o pensamento religioso dominante, que por vezes é frágil em temas cruciais como a própria religião e pior ainda em matéria de economia e política, como se viu pela enrascada brasileira na embaixada de Honduras; diante de alguns critérios questionáveis para reequipar nossas defasadas Forças Armadas e na burla descarada de normas da Justiça eleitoral para manter intocáveis pessoas que não poderiam sequer ser candidatas, quanto mais políticos eleitos. Fraca cidadania.

Tomás de Aquino, na sua Suma Teológica, depurou muitas questões. Como o pensador medieval, precisamos apresentar de forma convincente as respectivas soluções. Exigências também de nosso tempo. Como aquelas que levaram Martinho Lutero, em 31 de outubro de 1517, afixar as suas 95 teses à porta da Igreja do castelo de Wittenberg, dando início à reforma protestante. Um protesto estudado da fé pensante. Uma afirmação teológica, ancorada rigorosamente na Bíblia. Para isso, devemos estar muito bem preparados, sem preguiça intelectual. Afinal, “se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana” (Gálatas 6:3). Talvez já tenha chegado a hora de um vigoroso novo protesto.

Percival de Souza é escritor, jornalista e membro do Conselho Diretor da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista - SP