Ponto Final

O Veterinário de Crianças

Quando pequeno, eu sonhava ser tratado por um veterinário. Eu tinha consciência da dificuldade de dizer o que havia de errado comigo. Sabia apenas que havia coisas doentes e doendo. Mas não eram ferimentos externos, como um joelho ralado. Eram dores para mim indescritíveis. Como falar de angústias, ansiedades e medos com o vocabulário e entendimento de um menino de oito anos? Melhor era subir numa árvore bem alta e ficar lá o resto do dia.

O meu sonho era que um dia apareceria um adulto vestido de branco e com um estetoscópio especial. Ele se colocaria de joelhos e, com toda a calma, me olharia bondosamente nos olhos. Sem necessidade de palavras, me examinaria todo. Entraria, então, na minha alma (uma palavra que aprendi mais tarde) e seu estetoscópio gentilmente revelaria meus segredos. Então, tranquilamente ele me ajudaria a compreender meu próprio coração.

Só o compreender já seria bom. Mas se ele pudesse explicá-lo para mim, numa linguagem acessível… Para isso, talvez começássemos uma longa e profunda conversa. Ele me ensinaria as palavras certas para nomear e descrever meus problemas. Elas me permitiriam “olhar” para eles e falar deles para meus pais e pessoas de confiança. Eu iniciaria um bom período de convalescença.

De repente, o doutor me daria algumas receitas que abrandariam meus desconfortos, sanariam minhas culpas, meus medos, minhas angústias infantis. Sim, ele me prescreveria remédios para o coração.

Teria sido tão bom se tivesse encontrado esse missionário com chamado de Deus para exercer a delicada missão emocional da qual eu sonhava ser alvo, mesmo sem saber, ao pensar no “veterinário de crianças”. Eu não teria esperado cinquenta anos para começar a discernir minhas próprias dores, pecados e necessidades.

Hoje eu contemplo a encarnação do Verbo e vejo ali a origem dessa ordem sacerdotal “veterinária”. Descubro que Deus, em Cristo, se ajoelhou e nos olhou bondosamente nos olhos. E nomeou nossos pecados e dores; e iluminou nossos corações; e nos trouxe esperança de redenção. E nos prescreveu a receita do arrependimento, da confissão e do perdão. E nos derramou, sobre credores e devedores, graça.

Sim, “Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens. Luz que resplandece nas trevas” (João 1:4,5). Ao restabelecer o diálogo vital, esse ministério lança luz sobre as almas em trevas. “E nos deu o ministério da reconciliação” — entre as crianças e também entre aqueles que se fizerem como elas.

Autor: Presbítero Rubem Amorese – Igreja Presbiteriana do Planalto Paulista