Universo Feminino

A Mulher que Vi no Espelho

Antes de ir para casa passei no supermercado e comprei algumas coisas que faltavam para o jantar. Preocupada com o café da manhã do dia seguinte, aproveitei para levar pão de forma, leite, biscoitos e uma geléia. Lembrei que Júnior precisava de um caderno para os deveres de casa, levei logo dois. Ao pagar as compras vi mais uma vez que estaria sobrecarregada pelo peso de tantas sacolas. Sem contar que, em outra bolsa, levava também trabalho para fazer à noite, depois que as crianças dormissem. 

Ao chegar em casa, encontrei a pia cheia de louças, resultado do lanche que minha filha mais velha, Mariana, havia preparado para ela e o irmão. Agora ela estava assistindo à TV e não se prontificou a me ajudar com as louças e o jantar.

Fui para o banheiro, pois devido ao calor que estava fazendo naquele dia, precisava lavar as mãos e refrescar um pouco o rosto. Isso me daria algum alívio antes de enfrentar a pia e o fogão. Foi aí que dei de cara com “aquela mulher”. Ao olhar no espelho vi a expressão de cansaço em meu rosto. Os cabelos maltratados, pois há muito tempo não entrava no cabeleireiro.

Olhei para as minhas unhas que também não haviam sido feitas porque, nos fins de semana, não podia deixar a limpeza geral da casa por fazer. Meu marido não gostava de perder o futebol com os amigos e a única coisa que fazia aos sábados era colocar o lixo no portão para ser recolhido. No domingo, ficava lendo jornais, até a hora do almoço, e depois ainda os espalhava pela sala. A mulher ao espelho, agora, me olhava revoltada. Ela me lembrava que eu vivia esquecendo de mim mesma. 

Quando voltei para a cozinha já estava mais tranqüila. Tinha sido orientada pelo reflexo daquela mulher. Precisava manter a calma, continuar amando meu marido e meus filhos, mas a partir daquele momento eles teriam de conhecer a nova mulher na qual eu havia me transformado. Chamei minha filha para lavar as louças e lhe disse que naquele dia ela iria preparar o jantar. Aos 15 anos, já estava mais do que na hora de mostrar que sabia cozinhar. Afinal, ela sabia bem como fazer, pois eu tinha o hábito de ensinar-lhe tudo. Só que nunca havia deixado que fizesse nada sozinha. A “boba” daquela mulher (que tinha ficado lá no espelho) gostava de estar sobrecarregada.

 

Depois do jantar diferente, à moda Mariana, comuniquei à família que a partir daquela noite tudo seria diferente. Pedi que todos colaborassem com as tarefas de casa. Júnior deu a idéia de anotarmos tudo no que chamou de “escala de atividades”. Ele mesmo prendeu o papel na porta da geladeira com um imã que representava um sol de sorriso largo (igual ao meu).

Antes de dormir, passei um creme nutritivo no rosto, sem qualquer pressa.

Logo depois, fiz algumas anotações, sorrindo, em minha agenda para o sábado:

1o) Fazer minha parte nas tarefas de casa.


2o) Ir ao cabeleireiro.

3o) Tomar o chá da tarde com Maria Helena. Seria uma ótima oportunidade de bater um papo descontraído com minha irmã que morava em outro bairro e eu nunca tinha tempo de vê-la. No domingo, me convidei para almoçar fora com meu esposo e as crianças. Tínhamos algo esplêndido para comemorar: um novo e lindo tempo estava começando para todos nós.

“A casa e o bens vêm como herança dos pais; mas do Senhor, a esposa prudente”. (Provérbios 19:14)

 

Fonte: Revista Ester